Conto 30 - A Caçadora

sábado, 21 de setembro de 2019

Este foi um conto especial que eu tinha escrito para Anny Lucard! ;D

Espero que gostem! :3



Conto 30 - Ela quase conseguiu!
 Jessi e Zack do livro “A caçadora” 
autora: Vivianne Fair

Zack
Mais uma noite clara, enluarada e eu cheio de energia para encher o saco da Jessi. O que mais um vampiro poderia querer? Só que hoje algo estranho paira no ar...só não sei dizer o que é.
Saltei para o ar frio da noite – que para mim é uma delícia, mas para vocês, mortais, deve ser bem gelado – e busquei nos prédios pelo apartamento dela. Severus, minha nova coruja de estimação, estava brincando com o gato de Jessi, a Christie, pelo gramado – ou caçando a gata, não sei dizer. Eu poderia ficar pra ver quem ganha, mas eles gritam demais quando estão brincando/se matando.
Quando forcei a janela do quarto dela, percebi que estava trancada.
Epa. Será que fiz algo errado? Quer dizer, é claro que sempre faço algo errado, mas digo...será que exagerei? Será que a safadinha está zangada comigo?
Como se eu me importasse, claro. Afinal, sou tão lindo que ninguém consegue ficar bravo comigo por muito tempo.
Abri a janela com mais força e acho que trinquei o vidro. Ora, não é culpa minha, né? Culpa da Jessi que acha que isso é suficiente para me segurar.
Entretanto, senti uma força maligna no quarto quando pulei para dentro. Não sabia dizer de onde vinha; a única coisa que sabia era que Jessi estava toda despenteada, jogada na cadeira em frente ao laptop e com uma roupa que deve ter entrado junto com ela na máquina de secar. Ou algum cachorro mastigou até não poder mais.
Gente, eu devo ter feito uma coisa muito errada.
– Boa noite, Jessi! Como vai minha assassina fracassada favorita?
Ela só resmungou. Nem olhou na minha cara.
– Jessi?
Minha nossa...ela poderia estar doente?
– Jessi, o que você tem? Vim aqui te perturbar com o maior carinho e você nem olha na minha cara? O que que eu fiz? Pode não ter sido sem querer, mas não queria te magoar, você sabe, né?
– Não enche – ela finalmente murmurou com voz estranha – Aah, esqueci. É só o que você sabe fazer, né?
– Ai. Machucou.
– Mentiroso.
Ela voltou a teclar. Não estou nem um pouco acostumado a ser ignorado.
Meu Deus! Será que Jessi está possuída?
– Jessi...sua alma foi hackeada?
Ela olhou para mim com uma cara de matar. Os olhos dela emitiam um brilho sinistro e parecia pálida feito o cão.
Não, sério, eu quis dizer pálida feito vampiro. É costume de usar gíria, fazer o quê.
– Essa sua mania de Facebook está enchendo a minha paciência! –  ela explodiu, jogando as mãos para o alto – A única coisa que você faz lá é aumentar seu estoque de piadinhas e me mandar trocentas solicitações de joguinho!
Hum, acho que sei o que está havendo com a Jessi...ela pode estar de TPM. Mas nem morto – haha – eu vou perguntar. Ouvi dizer que isso é perigoso. Acho que vou tentar um tratamento de choque. 
– Jessi, a sua roupa parece apertada...andou ganhando peso? Você parece maior...
A Jessi teria virado a cabeça para trás se fosse a menina do exorcista, mas chegou bem perto. Então não está possuída.
O que significa que agora sim estou numa encrenca daquelas.
Oba!
A primeira coisa que voou foi o sapato, mas foi estranho. Quer dizer, ela realmente quase me acertou, apesar da minha velocidade supersônica. Jessi devia ter errado por um quilômetro para conseguir quase me acertar. Irônico, não?
– Uau, Jessi, pode estar ficando gorda, mas está ficando mais ágil. Quer dizer, o sapato quase...
Então foi aí que aconteceu. Uma enorme estaca surgiu segundos depois ao lado da minha cabeça. Jessi não poderia...
Quando ergui os olhos para ela, a minha caçadora acabara de levantar da cadeira. Parecia sombria; seu olhar estava na penumbra e comecei a sentir um poder que não era habitual nela, mas com certeza já tinha sentido milhares de vezes.
O poder dos caçadores.
– Jessi, a TPM transformou você em uma caçadora de primeira linha? Há males que vem pra bem, não é?
Quando ela levantou o rosto, parecia estar babando. Dei um passo para trás, surpreso.
– O que você...disse?
– Jesus! TPM, a palavra proibida! Credo, mulher, vai tomar um Lexotan!
Uma segunda estaca atravessou o quarto na maior velocidade e desviei por pouco. Ela quebrou a janela estilhaçando-a em mil pedaços. Um silêncio tenso fixou-se no quarto. Eu não resisti.
– Quero ver a senhora explicar essa bagunça toda pro diretor!
– Penso nisso depois que te cortar em pedaços.
Em um segundo, Jessi estava parada do outro lado do quarto. No outro estava quase em cima de mim com água benta em punho. Pulei para a noite aproveitando a brecha da janela e sumi pelo jardim.
O que raios acontecera com ela, afinal? Minha doce Jessi estava...bem, certo, ela nunca foi doce, doce. Mas minha caçadora também nunca foi tão...tão...intransigente? Poderosa? Sexy ao extremo?
A não ser quando usava aquele baby doll que tive que dar um sumiço nele. Estava me deixando louco, né? Não como ela estava agora, mas...
Depois que aterrissei no jardim bem perto dos dois animais se engalfinhando, respirei fundo – por força do hábito, claro. Jessi com certeza ia apaziguar a briga dos dois e ia ficar mais calma.
Tive uma surpresa quando a vi a poucos metros de mim. Ela nunca foi de correr tão rápido e o que mais me inquietava: ela não estava arfando.
– Jessi! Olha, nossos animais estão se matando!
Ela deu um sorriso sinistro.
– Não é muito diferente do que os donos deles vão fazer...
Ela pulou sobre mim com a estaca em punho e rolamos no chão. Claro que minha super-força logo a subjugou, mas ela se esquivou e tentou me dar um chute certeiro em um local que qualquer mortal seria forçado a colocar gelo. Levantei-me e afastei-me alguns metros dela.
– Meu Deus, Jessi, como você...
Ela não esperou eu me recuperar do assombro e voou sobre mim novamente.
Desatei a correr. Não podia ferir Jessi nunca, então tinha que fazer a minha caçadora voltar ao seu bom senso de incompetência. Saltei os muros da universidade sentindo a presença dela apenas alguns metros atrás de mim. Algo me dizia que ela não iria desistir; na verdade, nunca passei por isso.
Bem, como um mestre vampiro – antigamente – sanguinário e violento, devo admitir que nunca esperei que um caçador corresse atrás de mim, a não ser que estivesse querendo me divertir. Sempre o matava em instantes de segundo, antes mesmo que me perguntassem: “Ah, você que é o Zack? O Conselho me mandou para...”
Na verdade era só ouvir a palavra “Conselho” que eu perdia a cabeça. Eles tem me perseguido há séculos, literalmente falando.
Enquanto estava perdido em pensamentos, fiquei imaginando o que raios Jessi devia ter tomado, quer dizer, tudo bem que aquelas pernas dela são tudo de bom, mas nunca pensei que Jessi exigisse muito delas. Quer dizer, já estamos correndo há quase dez minutos! O que é mais fantástico é que estou usando de meus poderes de vampiro para alcançar a super velocidade e ela está quase me alcançando!
Quem é essa mulher, afinal? Fui enganado todo esse tempo?
Claro que a presença forte de duas pessoas tão poderosas na rua não tardou a alarmar meus discípulos. Logo logo, vi cabecinhas despontando nos telhados.
Eles sempre estão lá, na calada da noite, caçando ou me vigiando. O que me preocupava era: eles estão do meu lado ou contra mim?
Se estiverem do meu lado vão atacar Jessi e terei que protegê-la e impedi-la de me matar; se estiverem contra mim, vão tentar ajudá-la e eliminá-la para depois tomar meu lugar. Estou torcendo pela segunda opção, porque me defender é mais fácil que ser contraditório.
Dois começaram a correr pelo telhado, tentando alcançar minha super velocidade. Diminuí o ritmo. Se eu fosse muito para a frente, deixaria Jessi a mercê deles, mesmo que agora não parecesse que ela teria muito trabalho para eliminá-los.
Um deles pareou comigo na corrida e sorriu com os caninos refletindo as luzes fracas dos postes que passavam zunindo ao nosso lado.
– Mestre, precisa de ajuda?
– Não – respondi, apenas olhando para a frente – minha adorável caçadora e eu estamos brincando de pique-pega.
– Ah, sim... – ele murmurou, pouco convencido – e podemos brincar também?
Ergui a sobrancelha.
– Neste jogo só pode haver um pegador.
– E se pegarmos o pegador?
– Você trisca em Jéssica e vai ver o inferno mais rápido que tiro de mocinho em filme de faroeste.
Ele ficou em silêncio correndo comigo. Dobrei uma esquina tentando despistá-la e parecia que eu estava conseguindo. Jessi começou a ficar para trás.
– Está ganhando, mestre?
– Só me responda uma coisa...Contra ou a favor?
Ele me fitou nos olhos quando virei para ele e hesitou.
Era contra.
Girei o corpo e chutei-o com força, fazendo-o cair dezenas de metros adiante. Só me faltava saber se o outro que estava ao lado dele era contra ou a favor de mim. Tudo indicaria que era contra também, mas vocês não têm noção de como essa classe é desunida.
Parei um pouco e olhei ao redor. Nada de vampiros ou de Jessi. Voltei pelo caminho que havia seguido, tentando encontrá-la, mas sem deixar que ela me visse. Alguns metros adiante, vi alguns vampiros ao seu redor, mas pareciam temerosos em atacá-la. Jessi emitia uma estranha luz fraca. Já não corria, mas caminhava com uma determinação no olhar que nem vacilava ao ver os vampiros prestes a atacá-la.
Naquele momento reconheci Jessi como a caçadora que era e fiquei admirado. Nunca havia notado tanto poder antes. Segundos depois me recompus, assim que ela colocou os olhos sobre mim. Eles também notaram minha hesitação.
Muitos deles exclamaram quando me viram dar as costas e correr. Provavelmente ou surpresos porque seu mestre estava com medo – pensavam assim, pelo menos ­– ou pelo fato de eu me negar a atacar minha assassina.
Percebi que estava sendo cercado, mas não os temia. Temia apenas machucar Jessi.
A julgar pela estaca que atravessou o ar em um milésimo de segundo ao meu lado ela estava muito bem, obrigado.
Subi para cima de um galpão e fui tentando eliminá-los um a um. Não importava quem estava contra ou a meu favor, já que de qualquer forma machucariam Jessi para salvar/matar o mestre. Eles me atacavam em pencas e eu comecei a ficar um pouco esgotado. Pra que fui deixar para assaltar o hospital no fim de semana? Isso é que dá ser procrastinador!
Gente, adoro usar palavra velha, mas é triste não ter Jessi ao meu lado pra fazer careta e me perguntar se eu atualizei meu dicionário ano passado.
Senti um corte profundo em meu braço e me perguntei que tem teria ousado me machucar, quando vi um brilho vermelho sendo emitido logo abaixo do telhado. Jessi tinha tanto poder que ele estava refletindo em sua pele. Ela havia me tacado uma estaca tão rápido que nem pude ver.
Os vampiros exibiram suas carrancas e pularam no ar tentando cair sobre Jessi. A favor ou contra mim, todos queriam eliminá-la ou para me proteger ou para que ela não os atrapalhasse na sua conquista do meu posto.
Um a um fui tirando-os do telhado – valeu a pena todos os meus joguinhos de space invaders – tacando telhas neles ou as estacas que Jessi me lançava – de onde ela tirou isso tudo? – e eles começaram a recuar. No meu golpe de misericórdia, lancei meu golpe favorito – chicote estilo Star Wars, onde um grande e comprido raio de luz com a mobilidade de um chicote cortava feito laser – e derrubei todos os que restavam de uma vez. Eles fugiram com o rabo entre as pernas – bem, se fossem lobisomens fugiriam – e sorri, vitorioso.
– Viu, Jessi? Eu sou demais em qualquer ângulo. Na rua, na calçada, no telhado...que vampirão você resolveu caçar, hein?
Ela não disse nada, apenas me fitava com olhos vazios e cheios de ódio.
Se meu coração batesse ainda, ele estaria acelerado, mas confesso que estava sentindo um grande aperto nele. Minha doce e estabanada Jessi me odiava, assim como... assim como um caçador do Conselho.
– Jessi...o que foi que eu fiz, afinal?
Ela fez um rápido movimento e como não estou acostumado com aquela velocidade vinda dela, nem me dei conta que a minha assassina havia me tacado uma nova estaca. Escorreguei do telhado tentando me desviar e caí no meio das telhas, abrindo um buraco no teto.
Se eu fosse mortal, teria quebrado uma perna ou um braço quando aterrissei no chão do galpão, que, aliás, era um supermercado. Tentei tirar as telhas de cima de mim antes que Jessi viesse aonde eu estava e me pegasse desprevenido. 
Como eu a faria voltar ao normal? Quer dizer, ao seu estado normal, já que sempre achei a Jessi meio louca.
Digo, excêntrica, que é uma louca rica.
Ouvi um barulho no teto e me virei para o lado bem na hora. Por pouco a estaca me pegava.
– De onde está brotando essas porcarias de madeira, hein, Jessi?
Ela não respondeu, só rosnou. Levantei-me e corri por entre as prateleiras e estantes do supermercado pensando em como me livraria dessa vez. Será que todo esse tempo Jessi era uma espiã do Conselho focada apenas em descobrir meus pontos fracos? Será que toda aquela falta de jeito para caçar, aquele estilo de ‘não-acredito-em-vampiros-e-só-quero-comprar-roupas-caras’ ou viciada em Crepúsculo era só para me fazer ficar caído por ela e então conseguir me vencer?
Se isso for verdade, bem...então eles conseguiram. Eu não seria capaz de machucar a minha caçadora fofa – não que ela estivesse muito fofa naquele momento. Corri em círculos pensando em fazer Jessi voltar à realidade. Quando me vi num beco sem saída na sessão de doces, percebi que era tudo ou nada.
Estava disposto a dar adeus à minha existência? Não conseguiria imobilizar Jessi sem machucá-la e eu não conseguiria fazer isso...ou poderia?
Não. Jéssica que viesse. Com certeza o Conselho venceria desta vez, mas ela poderia dormir com esse peso na consciência?
Eric deve estar numa alegria que só, agora.
Subitamente um grito agudo cortou o momento de Jessi sacar uma nova estaca do bolso e voou com garras na face dela. Ela recuou, gritou e parecia ainda mais possessa. Minha adorável coruja de estimação voou em Jessi para tentar impedi-la de me matar.
Ganhou a luta com a gata da Jessi? Que orgulho!
Mas isso só retardaria minha caçadora e não a impediria. Apanhei um doce na estante ao lado e taquei na coruja para assustá-la. Severus desviou e o chocolate acertou em cheio a cara de Jessi.
Ela apanhou-o do chão com uma cara de ódio e veio andando lentamente em minha direção.
Abaixei os braços e fechei os olhos. Que venha. Prefiro morrer a machucar a louca do meu coração.
Cinco segundos se passaram.
Depois dez.
Quinze.
Abri um dos olhos. Jessi estava sentada com o chocolate na mão, agora aberto, totalmente debulhada em lágrimas.
– J...Jessi?
Ela me fitou com uma cara arrasada e abriu o berreiro.
– Você não me amaaaaaa...
– Q-Quê? Mas do que você...
– Você me chamou de gordaaaa...você é um monstroooo...
Eu não podia acreditar no que estava ouvindo.
– Você não quer mais me matar?
Ela abriu a boca cheia de chocolate e saiu cuspindo.
– Você é um grosso mal-educado! Você disse que sou feia! Horrorosa!
Eu ia responder que só a chamei de ‘gorda’, mas vai que a mulher fica possuída de novo?
– Está me dizendo que esse perrengue todo que passei foi porque a senhora ficou louca da vida por eu ter te ofendido?
– Sniff...Uff...ninguém usa mais ‘perrengue’ hoje em diaaaa....
Ela soluçava e mordiscava o chocolate. Agachei ao lado dela.
– Jessi, você não é gorda! Eu só estava te provocando. Acho feio mulher seca, sabe, e você é cheinha de curvas. Palavra de honra que você é um avião!
– É? – ela soluçou, limpando as lágrimas com as costas da mão – Você não me acha um canhão?
Explodiu feito um, mas não é a mesma coisa.
– Claro que não. Eu sou lindo e perfeito. Acha que teria mau-gosto? Então vamos pra casa limpar essas lágrimas, essas telhas, essa terra e tirar do seu bolso essas estacas nível ilimitado que você carrega e esquecemos tudo isso, certo?
Ela deu umas soluçadinhas e sorriu.
– T-tá. Mas nunca mais me chame de gorda.
– Nunca enquanto eu viver.
Ela ergueu uma sombrancelha inchada.
– Hã, digo, nunca enquanto eu existir.
Ela me abraçou e caminhamos lentamente para a saída do supermercado. Antes, é claro, enchi meus bolsos com inúmeras barras de chocolate.
Se ela pode carregar estacas, eu posso carregar escudos, certo?
Vai que ela tem a alma hackeada de novo?


Vivianne Fair
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