Conto de Natal - o presente indesejado

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Sei que vocês estavam esperando um conto de Natal do Zack e da Jessi, mas desta vez resolvi inovar! É um conto de Natal bem diferente dos contos de comédia que vocês estão acostumados, mas ei, por que não? É bom variar um pouquinho! ;D








Conto de Natal – o presente indesejado

Hoje saí mais uma vez em busca de alguém que queira aceitar meu presente. É noite de Natal, então será mais fácil. Todo ano é assim. Pelo menos uma vez as pessoas querem mostrar que estão tocadas (ou acham que estão).
Não fico desanimado por isso. É bom saber que ainda temos uma chance.
Uma casa enorme e muito bem decorada é minha primeira escolha. Há tantas luzes no jardim que acho que nem seria necessária iluminação na rua; os postes seriam inconvenientes. Uma árvore gigante de bolas coloridas cheias de glitter, um papai Noel no telhado, um boneco de neve feito de isopor do tamanho de um humano normal. Imaginativo. Por fora está lindo. Mas como estará por dentro?
Bati na porta suavemente, depois toquei a campainha. Um homem de meia idade, sorrindo, abriu.
Seu sorriso desmanchou no mesmo instante.
Desta vez caprichei. Aparentava ter 8 anos. Minha roupa estava rasgada no joelho, manchas escuras ao redor dos braços e nas calças, cabelo desgrenhado, e o cheiro, ah, o cheiro! Se eu fosse humano tenho certeza de que não estaria suportando.
Ele resmungou um “o que você quer?” e eu só retruquei com um “estou com fome e frio”. Ele pediu para eu passar amanhã. Insisti e ele fechou a porta me dando um empurrão de leve. Talvez estivesse tentando ser gentil.
Claro que eu não iria voltar. Ele perdeu a oportunidade do presente.
Passei por mais duas casas. Uma me deu um pedaço de pão. Bom, mas não o suficiente. Meu presente surtiria pouco efeito. A outra me jogou um casaco. Aceitei na hora, me despedi e depois passei por outra criança e o entreguei a ela. Eles não deram de coração, só queriam que eu não perturbasse.
Depois de passar por quase todas as casas, eu estava ficando triste. Nenhuma ainda havia sido digna. Nisso, passei por uma que tinha um modesto pinheiro na entrada, algumas poucas luzes e um pequeno presépio.
Promissor.
Ansioso, bati a porta com mais vontade. Desta vez foi o oposto; o homem estava meio mal-humorado, mas abriu um sorriso quando me viu.
— Pois não?
— Estou com fome e frio.
— Onde estão seus pais?
— Não tenho.
Ele me fitou por alguns instantes, me avaliando. Pareceu meio receoso e entendo perfeitamente. Entretanto, abriu a porta e permitiu que eu entrasse.
— Qual seu nome?
— Cris — sorri, com minha boca cheia de dentes amarelos e cariados.
A mãe pareceu surpresa, mas não reagiu de modo ruim. Havia um menino com idade próxima à minha, por volta de 7 anos.
— Temos um convidado para a ceia, mãe — disse o homem sem perder a expressão convidativa.
Ela se empertigou; pude perceber que estivera chorando. Eles estavam brigando, cheguei bem na hora.
O menino não pareceu estar muito feliz com minha presença. Será que não aceitaria meu presente? Crianças costumavam ser bem mais receptivas no passado.
— Boa noite, Cris — disse ela para mim, tentando manter a expressão alegre — Antes de sentar-se conosco, não prefere tomar um banho quente? Vou arrumar umas roupas para você.
Sorri acenando afirmativamente. Meu presente começara. Sem dúvida eles iriam aproveitar bem.
Demorei no banho para fazer valer ainda mais a pena. Depois de uma boa meia hora na banheira, o pai bateu na porta e disse que havia algumas roupas para mim penduradas na maçaneta. Saí da água, enxuguei-me e apanhei as roupas. O menino no final do corredor me fitava de rabo de olho. Bem, parece que terei alguma dificuldade, mas não pode ser pior do que as que enfrentei até agora.
Quando desci vestido e perfumado, a família me recebeu com um sorriso maior e abriram um espaço para mim à mesa. Atraquei-me com o peru sem cerimônia. Não estava com fome de verdade, mas precisava fazer com que acreditassem que sim. O menino novamente torceu o nariz para mim. Meu prato estava enorme, mas eu tinha que me esforçar para comer tudo. Soltei um arroto nada agradável e eles deram risadinhas. A mãe olhou para o pai e vi que trocavam olhares divertidos.
Ótimo. Minha presença mudou um pouco a situação.
Eles possuíam coisas comuns. Alguns retratos ao redor, quadros, um tapete velho. Nada de muito valor.
— João, por que não passa a sobremesa para o Cris?
João não pareceu muito contente ao perceber que eu admirava a casa. Passou o prato sem me fitar nos olhos e murmurando um “toma” de má vontade.
Sorri para ele, mas não surtiu muito efeito.
Após a ceia, eles fizeram uma oração simples. Fiz de conta que não sabia rezar e me ensinaram. Foi divertido. Arrumaram um lugar para mim no sofá da sala e desligaram as luzes. Disseram que se eu quisesse alguma coisa, para que subisse e avisasse. Eu acenei com a cabeça e todos subiram para o segundo andar da casa.
Fiquei sozinho. Esperei que desse umas onze da noite para levantar. Andei pela casa, fui até a cozinha, voltei. Eles não eram ricos, mas também não passavam necessidade.
Parei embaixo do pinheiro da sala. A árvore continha muitos presentes. Demais, até, para uma casa com apenas três pessoas. A maior parte era endereçada ao menino.
Sentei-me e comecei a chacoalhá-los. Eram todos brinquedos; ele sem dúvida não era do tipo que ganhava meias no Natal. Aquela família realmente precisava da minha ajuda.
Ouvi passos na escada. Sorri. Era tudo o que eu queria.
João ficou alarmado o me ver segurando um dos pacotes.
— O que você está fazendo?
Ele desceu depressa os últimos lances de escada e apontou para mim um dedo inquisidor.
— Vou contar para o meu pai.
— Desculpa. Só estava olhando. Nunca vi tantos presentes.
— Eles são meus!
— Percebi. Vai conseguir brincar com todos?
— Claro que vou!
Ele relaxou quando eu coloquei o embrulho de volta na árvore.
— Você tem muita sorte.
João deu de ombros.
— Não é grande coisa. O Luiz da minha sala ganhou uma viagem pra Disney.
— O que é Disney?
Ele tomou um susto e me fitou com olhos arregalados.
— Cara, você não sabe o que é a Disney? Onde você vive?
Eu sorri.
— Por aí.
João deu de ombros.
— O que você ganhou de presente do papai Noel?
— Papai Noel?
Ele se surpreendeu novamente.
— Não sabe quem é ele? Papai Noel sempre vem na noite de Natal e coloca presentes para as crianças sob a árvore!
— Bom... não tenho árvore. Nem casa. Talvez seja por isso que ele não tenha me dado nada. Não tem onde colocar.
João sentou-se ao meu lado.
— Você nunca ganhou presente de Natal?
Sacudi a cabeça negativamente a pareci abatido.
— Sério? Nem um carrinho?
— Nunca ganhei um carrinho na vida.
Ele colocou a mão na boca.
— Você brinca com o quê?
Foi minha vez de dar de ombros.
— Às vezes chuto uma latinha por aí.
Ele pegou um dos embrulhos e o sacudiu.
— Pedi muitos presentes esse ano.
— Você tem sorte dos seus pais te darem tanta coisa.
— Foi o papai Noel.
— Bem, você tem sorte do papai Noel te dar muita coisa, então.
Ele olhou para o alto das escadas. Sua voz saiu mais sussurrada.
— Meus pais não estavam contentes com esse monte de presentes. Quer dizer, minha mãe estava, mas meu pai disse que estava muito zangado de eu ter ganhado tanta coisa. Eles brigaram. Não sei por quê. Meu pai disse que estavam precisando economizar e mamãe retrucou dizendo que ele era um velho egoísta.
— Ele é?
Ele pensou por alguns instantes.
— Acho que não. Quer dizer, ele deixou você entrar.
— Pois é.
Ficamos em silêncio olhando para os pacotes sob a árvore e depois para as luzes de diversas cores que nos cegavam enroladas nela.
— Talvez eu não precise de tanta coisa assim. Tenho um monte de carrinhos.
— Que sortudo.
— E bolas. E vídeo games.
— Caramba! Nunca tive nada...
João olhou para mim direto nos olhos.
— Gostaria de ter?
Eu abri a boca parecendo um peixinho dourado.
— Claro!
Ele mexeu em alguns embrulhos. A princípio pareceu meio hesitante, mas sacudiu um pequeno e me entregou.
Eu o abri na mesma hora e ele riu. Dei um grito sufocado pela minha mão quando admirei o carro esporte brilhante.
— Caramba! Nunca nem toquei em um desses!
João ficou me observando enquanto eu empurrava o carrinho em torno do tapete explodindo de alegria.
— Toma. Pode ficar com esse também.
Eu o admirei com olhos arregalados. Quase arranquei da mão dele o embrulho e o rasguei como se nunca havia desejado nada da vida. Era um barco. Gargalhei e abracei os presentes com lágrimas nos olhos. Conforme eu ia brincando, João ia estendendo para mim os outros embrulhos. Eu aceitava todos animado e choroso. No final, havia apenas um. Ele o segurou por um longo tempo.
— Já jogou vídeo game?
Eu tremia de excitação.
— Nunca. Só ouvi falar.
Ele permaneceu segurando o pacote com dedos vacilantes. Estava em uma batalha profunda em seu íntimo, eu podia ver.
— Tem algum lugar onde carregar? Tipo, na luz?
— Eletricidade? Às vezes no abrigo tem. Posso encontrar alguma nos postes de luz de vez em quando.
Ele deu de ombros e me entregou.
Eu o abri devagar desta vez.
— Como se chama?
— É um PSP. O mais caro da loja, minha mãe falou.
— Você vai me dar mesmo?
— Bom, eu tenho um armário cheio de coisas. Acho que nem preciso de tudo isso. Amanhã mesmo vou falar para os meus pais que quero doar alguns deles para a creche.
— Eles não vão brigar?
— Agora acho que não. Meu pai tem razão. Eu estou mesmo mal-acostumado.
Sorri e ele também. Brincamos madrugada adentro. Quando estava para amanhecer, eu disse que precisava ir. Ele me pediu para voltar outras vezes. Garanti que sim, mas não voltaria nessa forma, claro. Estaria invisível. Mas voltaria.
Quando estava quase na esquina, percebi que ele me acenava da porta da casa. Acenei de volta e ele entrou. Olhei ao meu redor e vi três crianças deitadas na sarjeta, aquecendo-se umas às outras, ferradas no sono. Despi-me e deixei as roupas com elas. Também deixei todos os brinquedos e o tal PSP.
Dar é melhor que receber. Será que não percebem que a sensação de ver o outro feliz é melhor do que um prazer somente seu e momentâneo?
Deixei esse presente com aquela família. Eles estarão hoje felizes por terem feito um menino pobre se sentindo feliz e acolhido. Ficarão com aquela sensação por anos e, enquanto repetirem o gesto, vão entender o que é felicidade.
Quanto a mim, minha missão estava cumprida. Amanhã voltarei a outras casas, mas já não será mais tão fácil, afinal, o Natal acabou. Mas quem disse que missões devem ser simples assim?
Não esqueça de abrir a casa para mim. Estarei lá para deixar o meu presente.
Não é só para proteger as pessoas que estamos por aí.
Abra sua porta.
Deixe um anjo entrar.


Vivianne Fair


Bem, espero que tenham gostado!! 

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Um comentário:

  1. Uau, Vi.
    Não consigo nem digitar direito porque você me fez chorar!!!
    Que conto mais emocionante! Exatamente o que eu estava precisando agora!!!
    É por isso que eu te amo, amiga!!!
    Obrigada!
    Beijos
    Camis - blog Leitora Compulsiva

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